
Equipe comandada por Dilson Castro teria usado carro particular para perseguir familiares de denunciante. Abordagem foi flagrada por câmeras de segurança. Moradores denunciam clima de medo e violência na Zona Norte.
______________
O bairro Santa Etelvina, na Zona Norte de Manaus, vive dias de medo e insegurança — não pelos criminosos que deveriam ser combatidos, mas por aqueles que têm a missão constitucional de proteger a população: policiais militares da 26ª Companhia Interativa Comunitária (CICOM).
Moradores denunciam que uma equipe comandada pelo capitão Dilson Castro está promovendo uma verdadeira campanha de intimidação e truculência, utilizando, inclusive, veículos particulares para abordar e coagir cidadãos que ousam denunciar abusos.
O caso mais recente envolve a moradora Kailane, cuja residência, na rua Caranã, número 19, foi cercada por três policiais militares em um carro sem identificação oficial. Eles permaneceram rondando a rua até localizar a irmã de Kailane e, de maneira direta e intimidadora, questionaram:
“Ela está em casa? Que denúncia ela fez?”
Em seguida, os policiais tiraram fotos da residência e, como se fosse um recado velado, afirmaram:
“Qualquer coisa, procura a 26ª CICOM.”
A ação foi registrada por câmeras de segurança de residências próximas, evidenciando a movimentação suspeita do veículo e dos policiais. O vídeo, que circula entre moradores, comprova o teor das denúncias e fortalece a acusação de que a abordagem teve caráter intimidatório.
Reconhecimento oficial e abertura de inquérito
Todos os policiais envolvidos foram formalmente reconhecidos na Delegacia de Justiça e Disciplina (DJD) da Polícia Militar e, segundo fontes da própria corporação, serão notificados para responderem a um inquérito que apurará a conduta abusiva.
Para os moradores, porém, o reconhecimento é apenas uma formalidade: “Aqui, todo mundo sabe quem são eles. Andam à paisana, mas fazem questão de mostrar que sabem quem somos, onde moramos e que podem fazer o que quiserem”, afirma um morador, que pediu para não ser identificado por medo de represálias.
O caso de Kailane não é isolado. Segundo denúncias, com a anuência do capitão Dilson Castro, a equipe da 26ª CICOM vem aterrorizando a população da Zona Norte com abordagens sistematicamente truculentas e ações que beiram a perseguição.
Moradores relatam que as incursões são feitas fora do padrão, muitas vezes em veículos particulares, longe de qualquer controle institucional. A prática, que deveria ser condenada, parece, segundo os relatos, ser endossada pelo comando da unidade.
“Não é só com a Kailane. Aqui, quem denuncia ou reclama sabe que vai receber visita. E não é de viatura, não. Eles vêm escondidos, mas com farda mental”, ironiza um comerciante da região.
Clima de medo e omissão das autoridades
A presença ostensiva da Polícia Militar deveria gerar sensação de segurança, mas em Santa Etelvina ela alimenta o pavor. Moradores relatam que evitam procurar as autoridades para denunciar crimes, justamente por medo de sofrer represálias como a que atingiu a família de Kailane.
“É desesperador saber que quem deveria te proteger é quem está te ameaçando. Como confiar?”, questiona um líder comunitário.
Até o momento, a Polícia Militar do Amazonas e o comando da 26ª CICOM não se pronunciaram oficialmente sobre o caso.
Além do relato das vítimas, as imagens de videomonitoramento devem ser anexadas ao inquérito, funcionando como provas irrefutáveis da conduta dos policiais.
Organizações de defesa dos direitos humanos e entidades civis cobram não apenas a investigação, mas a imediata responsabilização dos envolvidos, bem como a intervenção no comando da 26ª CICOM.
“Não basta afastar os policiais, é preciso desmontar a estrutura de intimidação montada com aval do comando. Se há omissão ou conivência, o comando também é responsável”, afirma uma advogada criminalista ouvida pela reportagem.
Próximos passos
O inquérito aberto na DJD poderá resultar em sanções administrativas e, dependendo das conclusões, até em processos criminais contra os policiais.
Enquanto isso, os moradores de Santa Etelvina seguem reféns de um sistema que, em vez de proteger, intimida e violenta.
“É a polícia que deveria nos defender que nos ameaça. Quem está protegendo quem?”, questiona outro morador.
A reportagem procurou o comando da Polícia Militar do Amazonas e da 26ª CICOM para comentar as denúncias, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria.
O espaço segue aberto para manifestações.
O caso é mais um retrato preocupante da fragilidade institucional e do abuso de poder que se perpetuam em algumas forças policiais. Moradores de Santa Etelvina e de toda a Zona Norte aguardam que as autoridades superiores e o Ministério Público atuem com firmeza para restabelecer a confiança na segurança pública e garantir que a lei seja aplicada a todos, inclusive àqueles que deveriam defendê-la.