
O Amazonas tem um enorme potencial que pode ser explorado pelas indústrias do Polo Industrial de Manaus (PIM): a economia verde, modelo que alia crescimento econômico, preservação ambiental e inclusão social. Na visão do engenheiro civil Marcellus Campêlo, esse é um dos segmentos que merece total atenção e que tira a Zona Franca de Manaus (ZFM) da dependência exclusiva dos incentivos fiscais. Ele defende que a luta continue sendo forte pela manutenção dos incentivos, mas que também se busque novas alternativas para impulsionar a economia do estado.
Ex-secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) e da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), Marcellus Campêlo considera que as empresas devem transformar a preservação da floresta, bandeira que todos defendem, em vantagem competitiva, fazendo com que os produtos fabricados no PIM sejam associados à sustentabilidade, à inovação e à baixa emissão de carbono.
“Para isso, é claro, não basta ter uma fábrica no PIM. É preciso adotar, de fato, as práticas de ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), de forma que os produtos aqui fabricados tenham certificação atestando o caráter de sustentabilidade. Um ativo que agrega um enorme valor nos mercados globais”, afirmou.
Uma indústria verde, ele explica, só existe quando há conexão com a realidade local, fortalecendo, assim, as cadeias produtivas vinculadas à biodiversidade. “É preciso aproximar a capacidade tecnológica instalada no PIM, do potencial econômico existente na floresta”, reforça.
Na avaliação de Campêlo, essa linha acompanha uma tendência mundial em que consumidores, investidores e grandes empresas valorizam produtos com origem sustentável, rastreabilidade e compromisso comprovado com boas práticas socioambientais. “Nesse cenário, a Zona Franca precisa ir além do debate sobre incentivos fiscais e explorar um diferencial que poucos polos industriais no mundo possuem: produzir em uma das regiões mais preservadas do planeta”, afirmou.
“Precisamos defender o modelo que sustenta empregos e preserva a floresta, mas também construir a economia do futuro. O Amazonas tem condições de se tornar uma referência global em desenvolvimento sustentável, transformando a floresta em pé, em oportunidade, inovação e prosperidade para as próximas gerações”, destaca.
Após mais de sete anos à frente da Sedurb e da UGPE, órgãos responsáveis pelo desenvolvimento urbano e pela execução de projetos que impactam diretamente a vida da população, como água e esgoto tratados, asfalto, iluminação pública e moradia, Marcellus Campêlo deixou os cargos em março deste ano, para colocar o nome à disposição do União Brasil como pré-candidato a deputado estadual. Campêlo é vice-presidente estadual do partido e membro titular do diretório da Federação União Progressista.
» RESPONSABILIDADE AMBIENTAL
Segundo ele, o desafio do Amazonas é transformar a sustentabilidade em valor econômico, estimulando as indústrias instaladas no PIM a ampliarem a adoção de práticas ESG e padrões reconhecidos internacionalmente de responsabilidade ambiental. Campêlo cita como exemplo o programa ZFM+ESG, lançado pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), órgão federal responsável pela administração do modelo, que incentiva empresas do Polo Industrial a incorporarem essas práticas e fortalecerem a competitividade da produção amazonense.
Na opinião do ex-secretário, o próximo passo é fazer com que essa transformação também seja percebida pelo consumidor. Ele defende que produtos fabricados na Zona Franca possam, no futuro, carregar certificações ou selos reconhecidos que comprovem o compromisso das empresas com a economia verde, a baixa emissão de carbono e a responsabilidade ambiental.
Para Marcellus Campêlo, esse diferencial pode agregar valor à produção amazonense e ampliar a presença dos produtos do PIM em mercados que priorizam critérios de sustentabilidade. “O consumidor está mais atento a produtos associados à sustentabilidade. O Amazonas tem todas as condições para liderar esse movimento, transformando a preservação ambiental em oportunidade econômica e geração de riqueza”, ressalta.
Ainda de acordo com Campêlo, a Zona Franca contribuiu para concentrar grande parte da atividade econômica do Amazonas em áreas urbanas, especialmente em Manaus, reduzindo a pressão sobre áreas florestais. O resultado é um estado que preserva mais de 97% de sua cobertura vegetal original e reúne condições únicas para transformar essa riqueza ambiental em inovação, novos negócios, emprego e desenvolvimento sustentável.
“Proteger a Zona Franca e avançar na economia verde não são caminhos opostos. São partes da mesma estratégia para garantir desenvolvimento, inovação e oportunidades para as próximas gerações”, afirma.
» GUERRA FISCAL
Apesar de defender uma agenda voltada para o futuro, Campêlo ressalta que essa transformação depende da manutenção das condições que garantem a competitividade da Zona Franca. Ele cita como exemplo a recente decisão da Justiça Federal que extinguiu a ação movida pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) contra os incentivos assegurados ao modelo na regulamentação da Reforma Tributária.
A decisão foi favorável ao Amazonas, mas não encerrou a discussão. A Justiça Federal entendeu que o instrumento utilizado pela entidade não era adequado para questionar a legislação, sem analisar o mérito da ação. “A decisão é importante para o Amazonas, mas não significa que a ameaça acabou. O fato de o mérito da questão não ter sido analisado mantém a discussão aberta e exige atenção permanente. A Zona Franca continua precisando de vigilância e defesa constante”, alerta.
De acordo com Marcellus Campêlo, os incentivos fiscais não representam privilégio, mas uma compensação diante das dificuldades logísticas e estruturais enfrentadas pelo Amazonas. “Atacar os incentivos significa colocar em risco mais de 500 mil empregos diretos e indiretos que dependem da Zona Franca. Quando uma fábrica fecha, milhares de famílias são afetadas e toda a economia regional sente os efeitos”, observa.
Para o ex-secretário, preservar a competitividade da Zona Franca e acelerar a transição para a economia verde fazem parte da mesma estratégia de desenvolvimento. “O futuro do modelo depende não apenas da manutenção dos incentivos fiscais, mas também da capacidade de transformar sustentabilidade em inovação, valor agregado e novos mercados para os produtos fabricados no Amazonas”, atesta.