
Manaus – A pequena fachada do Império Sebo e Antiquário destaca-se na paisagem urbana sóbria e no movimento intenso que passa pela rua Luiz Antony, no Centro de Manaus: pintada de um verde e rosa parecido com o da Mangueira, a entrada do prédio é um prenúncio do encontro entre simplicidade e riqueza que estão dentro do sebo. O local busca manter a memória de Manaus viva com objetos que remetem à lembrança de diferentes épocas da cidade.
O interior é tão vasto e completamente cheio que não parece estar conectado à pequena fachada. Estantes, prateleiras e até partes dos corredores são tomadas por livros, filmes, discos de vinil e CDs, além de uma infinidade de objetos relacionados a um passado recente ou remoto – rádios, gramofones, TVs de tubo, toca-discos, rolos de filme, moedas câmeras analógicas e tantos outros objetos formam a flora do local, quase toda de um tempo em que as coisas eram mais mecânicas e mais lentas. A fauna, é claro, é composta por quem quer saber desse passado – amantes da literatura, da música, da história e das curiosidades.
Uma paixão de família
O sebo foi inaugurado há 15 anos pelo casal Aldrim Almeida e Myrella Guimarães, ele natural de Tabatinga e ela, de Goiás, que estudavam Comunicação Social e ‘caçavam’ por livros para estudar. Ao longo de viagens pelo Brasil e pelo exterior, o casal montou um acervo que se tornou grande demais para ser apenas pessoal. Os dois resolveram compartilhá-lo para difundir e preservar a cultura, escolhendo o nome Império pela admiração pelo legado cultural e científico de Dom Pedro II.
Com estimativas de 150 mil discos de vinil, 20 mil livros, 20 mil DVDs, 15 mil CDs, Myrella brinca que “perderam o controle”. Além do que está exposto na loja, o prédio ainda possui diversos espaços de armazenamento para o imenso estoque de discos. Além disso, o Império ainda converte fitas VHS e rolos de filme em DVD – o casal inclusive já converteu muito material raro de filmagens do Amazonas no século passado em filme 8mm.
Segundo Myrella, o público é diverso, e normalmente específico. “Não existe um perfil geral. O mais próximo que se chega é pela faixa etária: os idosos procuram mais discos variados e agulhas para manutenção de seus toca-discos, enquanto muitos jovens vêm atrás de livros e LPs de rock. Mas não é uma coisa geral, normalmente é algo bem peculiar de cada um”, explica a livreira.
Aldrim e Myrella têm duas filhas, de 18 e 16 anos, e o negócio é administrado conjuntamente pela família, que também mora na casa ao lado do sebo. Cercada por cultura, a família é movida pela paixão pelos livros, pelos filmes e pela música e influenciou nos gostos das filhas, que tem quartos cheios de livros e ouvem bossa nova e Beatles. E, como brinca Aldrim, “nada de televisão!”.
“Nos 15 anos da loja, já conhecemos muita gente, aprendemos muita coisa, vendemos, compramos e recebemos muita coisa. Há cinco anos, nós doamos livros, porque queremos incentivar a meninada aqui do bairro e da cidade a ler. Eu acho que cultura sempre é bom, transforma a vida das pessoas, enquanto que a ignorância é o pior dos pesadelos, porque é a raiz de todos os outros. Mas é um negócio que não se pode fazer pensando em lucros exorbitantes. Dá para você viver bem, mas não é uma coisa para se fazer por dinheiro. Tem que ter paixão por isso aqui”, reflete Aldrim.
Uma preocupação comum aos dois é a preservação da memória e da cultura manauara: as constantes doações de livros e o a compra massiva itens que aparentemente não vão ‘dar lucro’ e não aparentam valor imediato são tentativas de refrear o processo de perda da memória da cidade.
Conhecimento alimenta conhecimento
O sebo também é frequentado por muitos estudantes e pesquisadores. Segundo os donos, já houve estudantes que frequentaram o local ao longo da jornada acadêmica, escrevendo livros, pesquisas e teses universitárias com material que adquiriram ali, dando continuidade ao conhecimento.
“Esse é o nosso objetivo, é a missão do Império: contribuir com a memória e com o conhecimento. Costumo dizer que o nosso sebo é uma loja de materiais de construção: vendemos tijolinhos para o trabalho intelectual. Tenho livros na minha estante pessoal o mesmo à venda no sebo que foram feitos por autores que vieram pesquisar no próprio sebo”, afirma Aldrim.
O saudoso jornalista Joaquim Marinho, grande agitador cultural de Manaus era assíduo no local, assim como o cientista social e membro da Academia Amazonense de Letras, Renan Freitas Pinto, e o poeta Thiago de Mello.
“Eu acredito que quem começa no sebo, quem frequenta sebo tem chance de ser bem-sucedido na vida. Porque você está buscando conhecimento, está sempre cercado por informação, por cultura e isso reflete no seu caminho. Mas fico preocupado quando vejo vários sebos e antiquários fechando, porque eles são um termômetro da sociedade: se o sebo prospera, é porque as pessoas vão atrás, estão indo atrás de cultura, de conhecimento, de história, de memória”, reflete Aldrim.
Por uma cultura de sebos
Em um tempo de turbulência política, o casal acredita que os sebos formem uma insuspeita instituição democrática: em sua humildade, os sebos recebem qualquer um, tem livros a qualquer preço, de qualquer época, sobre qualquer assunto, e com o maior espaço possível para o contraditório.
“Nós temos livros aqui do século XVIII, e também livros recentes. Fazemos o restauro e a adaptação de praticamente todos os tipos de mídia gravada. Doamos livros, muitos deles quase em perfeito estado. Nós abrimos a loja e um ano depois, o Aldrim saiu do emprego para vivermos disso aqui, e virou isso”, lembra Myrella.
Uma das ideias do Império para a cultura é a concepção de políticas públicas que entendam esse papel do sebo como motor cultural e que impulsionem tanto os sebos quanto a educação e a busca pelo conhecimento.